“A Marginália de Amadeo” amplia o olhar sobre a obra de Amadeo de Souza Cardoso promovendo a noção de margem como centro de reflexão.
Ao deslocarmos o foco das grandes composições e dos acontecimentos mais iconográficos da sua representação, emerge um outro estado de perceção, capaz de captar um universo expressivo ínfimo e íntimo, sempre presente desde a sua infância, mas raramente tornado visível. Um mundo visual pleno de invenção gráfica, ironia, sátira social e política, representações frívolas — por vezes interrompidas e hesitantes — que se esquivam à firmeza das realizações pictóricas mais célebres, revelando uma personalidade sensível e inquieta desde os tempos pueris.
Esta exposição dedica-se, neste sentido, à incerteza e ao desassossego no traço de Amadeo: revela o desenho como espaço de teatralização da dúvida; o esboço como tentativa falhada, gesto infinito que nunca se conclui; o risco divergente e sem medida, que resiste à leitura apressada; o apontamento lacónico, marginal, que parece desejar desaparecer; a experimentação (cali)gráfica nos cantos dos suportes.
Reúnem-se, pela primeira vez de forma tão abrangente, desenhos inéditos descobertos nos frontispícios e páginas soltas dos manuais escolares de Amadeo de Souza Cardoso, pertencentes à biblioteca privada da casa da família, em Manhufe (Amarante), bem como livros literários de coleções privadas e institucionais, onde se encontraram manifestações gráficas do autor. A exposição apresenta ainda esquissos e apontamentos, revistas, um manuscrito ilustrado, algumas pinturas paradigmáticas, postais, cartas originais e outros materiais que o processo de investigação “trouxe a lume”.
O que apre(e)ndemos de Amadeo quando demoramos a nossa atenção sobre a sua inquietude criativa, manifesta nos lugares mais inusitados desde tenra idade?
O que nos revela a sua marginália? Quais as suas ressonâncias para a atualidade?
Samuel Silva
(Curador)
Inauguração dia 7 de Março, pelas 17h00
